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#PVEaBordo: último dia de formação, a escola da montanha de morangos

Para fechar com chave de ouro nossa jornada pela Finlândia, nesta sexta (6) pegamos um ônibus bem cedinho e partimos em direção a Kouvola, a 134km de Helsinque, com cerca de 83 mil habitantes. O município possui a Mansikkamäen koulu, escola especializada em esportes e crianças autistas do 1º ao 6º ano. Aberta desde 2014, sua construção demorou um ano e custou 11 milhões de euros.

 

Diferente de outras instituições que visitamos, após a palestra com o diretor Pekka Lipiainen, eles nos deixaram livres para conhecer a escola sozinhos, em grupos de quatro pessoas. Pudemos entrar nas salas, nos apresentar para as crianças, conversar com elas, além de ver o que elas estavam fazendo quando nos aproximamos. 

 

 

A Mansikkamäen koulu, que significa escola da montanha de morangos, foi uma fusão entre duas outras instituições, a Escola do Castelo, muito forte nos Esportes e a Escola dos Morangos, especializada em educação especial. São 563 alunos, 40 professores e 30 auxiliares e mais da metade deles trabalha com as classes especiais. “Nas salas especiais, temos crianças que possuem alguma dificuldade de cognição, como dislexia, discalculia, transtorno do déficit de atenção com hiperatividade, entre outras. São, no máximo, 10 alunos, além de um professor e um assistente dentro de classe”, comentou o diretor, mas apesar disso, eles se relacionam com outras crianças no recreio, almoço e aulas de esportes.

 

E quando os alunos com TDAH, por exemplo, superam o desafio inicial de adaptação na escola, eles voltam para as salas regulares junto às outras crianças. O objetivo é sempre integrar os estudantes. “Quando sentimos que o aluno pode ir para uma sala regular, eles começam aos poucos. E isso pode durar, por exemplo, um ano. Eles vão aprender as disciplinas tradicionais, mas a auxiliar deles ainda assim os acompanha”, disse Pekka.

 

A partir do 3º ano do Ensino Fundamental, as crianças que querem buscar mais especialização em esportes ou música podem estudar na Mansikkamäen, mesmo com a lei da escola próxima.

 

Autismo

 

A escola é a única de toda a região com especialização em crianças autistas e possui três classes voltadas para este tipo de deficiência. Desde os 6 até os 16 anos eles podem frequentar a instituição. “Nas classes A1 e A2, os alunos têm comprometimentos tão severos que não falam. No A3, eles são mais inteligentes que todos nós juntos, sem nenhum problema cognitivo. Eles têm contato com outras classes e participam das aulas”, disse Pekka.

 

Para cuidar dos pequenos, a escola conta com uma equipe 80 pessoas, entre professores, auxiliares, enfermeiros, psicólogos, médico psiquiatra e um coordenador. Mas cada criança autista tem dois professores responsáveis que se revezam nos seus cuidados. Todos os estudantes devem seguir o plano nacional de ensino, mas para o aluno especial é feito um plano individual pelo professor, de acordo com as suas necessidades e metas customizadas. 

 

Jonna Pasanen, professora de educação especial, afirmou que seu trabalho é sempre feito junto aos especialistas, como o médico e o psicólogo. “Precisamos trabalhar em conjunto. Os pequenos frequentam a terapia e outras atividades”, comentou. 

 

Em Kouvola, as crianças com síndrome de Down ficam numa instituição especial. Já os alunos com deficiência auditiva e visual estudam em escolas regulares, mais próximas de suas residências, mas existe uma instituição no contraturno que eles podem frequentar para desenvolver suas habilidades.

 

Clube de cuidados

 

O clube funciona das 6h30 às 17h30 e é um espaço onde os alunos podem brincar, fazer o dever de casa, atividades manuais, entre outras coisas. É o local onde os pais deixam as crianças antes ou depois da aula sob a supervisão de um professor. São 60 crianças frequentando o local.

 

Um aluno do 1º ano, por exemplo, tem normalmente 20 horas semanais de aulas, com disciplinas como Finlandês, Matemática, Estudos ambientais, Religião e Ética, Educação Física, Música, Artes Visuais e Artesanato. A primeira aula começa às 8h30 e termina às 14h15. Como na escola eles trabalham por projetos, foi decidido colocar duas aulas juntas para integrar duas disciplinas. Então, a cada 1h45 eles têm um intervalo de 30 minutos.

 

Em Kuovola, foi decidido que o Inglês começaria a ser dado no 3º ano. Já o Sueco, começa obrigatoriamente no 6º. E a partir do 4º ano, o aluno pode fazer ainda uma outra língua, entre elas o francês, o russo ou o alemão. E no 8º ano, é possível fazer ainda um 4º idioma.

 

A escola inteira se divide por cores e, para chegar até suas salas, os alunos do 4º ano precisam seguir a trilha de caminhos azuis. Já o 5º ano se identifica com o amarelo e o 6º é da cor verde. 

 

Não existem banheiros coletivos para as crianças. Segundo o diretor, os banheiros individuais são uma tendência: “Queremos que os alunos se sintam tão confortáveis como nas suas casas, por isso acreditamos que eles têm o direito à privacidade total neste espaço”. Percebi que também existe um cuidado em deixar os ambientes aprazíveis, com iluminação indireta, tornando as salas mais acolhedoras possíveis.

 

A família finlandesa

 

Os pais finlandeses costumam ser muito interessados na educação de seus filhos. Eles conversam com os professores semanalmente e, além disso, toda a comunicação é feita por meio de um sistema chamado Wilma. Ainda assim, talvez algum professor prefira mandar mensagens ou ligar, a depender da situação. Cerca de 50% das classes têm grupos de pais, mas existe uma associação oficial com 10 representantes, que faz a conversa com a escola. “Eles nos dão liberdade para trabalhar com paz. Não existe uma cultura de nos dizerem o que devemos fazer”, disse Pekka.

 

Tivemos a oportunidade de almoçar na própria escola e, depois desse momento, fomos apresentados à professora de inglês Katariina Lahtinen, que nos mostrou algumas salas que ainda não tínhamos visto. Conhecemos a sala de música e lá o isolamento acústico é total, existindo a possibilidade de duas bandas tocarem lado a lado, em salas muito próximas. 

 

Percebemos que no corredor havia duas crianças sentadas próximo a uma pequena sala com equipamentos esportivos e outros acessórios. A professora nos explicou que existem representantes entre os alunos para assumir a responsabilidade de emprestar estes equipamentos e organizar o espaço. “Todos precisam ir para o pátio durante o recreio, é uma lei da nossa escola. Acreditamos que eles precisam gastar energia, além de ter práticas regulares de exercícios”, comentou Katariina.

 

Outro ponto curioso: na sala de marcenaria, notamos uma porta especial, reforçada. Segundo ela, em todas as cidades finlandesas existem alguns pontos espalhados com bunkers, um esconderijo de segurança, em caso de uma ameaça externa. E um dos bunkers de Kouvola fica na Mansikkamäen koulu.

 

 

Também vimos um pequeno medidor em cima das mesas dos alunos, com gradações de cores, que vão desde o verde, amarelo, laranja, até o vermelho. A professora nos explicou que é um sistema para medir o humor dos estudantes. Eles auto avaliam seu comportamento durante o dia e o professor também pode avaliá-los. 

 

Um tapume de feltro móvel também é colocado diante de crianças que estão precisando de concentração ou que estão incomodando os outros alunos. E ainda há fones supra-auriculares para aqueles estudantes que desejam silêncio total para fazerem suas atividades. As lousas são digitais e os professores utilizam um material disponibilizado online em sala de aula. 

 

Uma última informação interessante: quando chegam ao 5º e 6º anos, os estudantes que se destacam ganham como recompensa o apadrinhamento de alunos do 1 e 2º anos. “É um grande orgulho para eles receberem esse reconhecimento. O menino mais terrível vira um cavalheiro quando recebe esta função”, disse Katariina. 

 

 

Terminada a visita, voltamos todos para o hotel e fomos, juntos, para um restaurante típico finlandês para o jantar de encerramento.

 

A formação acabou por aqui. Obrigada por terem nos acompanhado nesta viagem. E esperamos que o que aprendemos aqui possa gerar muitas coisas boas nas escolas brasileiras.


Até mais!

 

Por Carolina Nunes, gestora de programas do Instituto Votorantim

 

Ibiraçu e Aracruz foram premiados na categoria Destaque Nacional do Prêmio PVE, nas classificações até 20 mil habitantes e com mais de 20 mil habitantes respectivamente. A premiação ocorreu no início do ano, e se refere a ações realizadas nos municípios referentes a 2018.