Família e escola precisam empreender uma relação de parceria e se fortalecer. Mais espaços de escuta do lado da escola podem ajudar familiares e estudantes. Convém também que as escolas implementem formas de acolher as famílias e suas necessidades, bem como suas possíveis ideias do que pode funcionar nesta rede de apoio pelo aprendizado.

 

Susan Sheridan, diretora do centro de pesquisa em criança, juventude, família e escola da Universidade de Nebraska-Lincoln, nos Estados Unidos, e especialista em Psicologia Educacional pela Universidade de Wisconsin-Madison, propõe a regra dos “três A’s”.

 

Abordagem

Todos queremos o melhor para a criança, e a escola pode entender que a família também tem um papel de educador no processo de aprendizado dos estudantes. A abordagem é, portanto, a da responsabilidade compartilhada sobre a educação. Um ponto fundamental da fala de Susan é que “podemos apoiar um ao outro para apoiarmos o aluno”.

 

Atitude de reconhecimento

O segundo “A” trata da atitude de reconhecimento (acknowledgement, em inglês), por parte dos professores, de que familiares querem o melhor para os seus estudantes, mas nem sempre sabem exatamente como ajudar. Mais uma vez, é a união de esforços que permitirá ajudar a criança e o adolescente de maneira eficiente.

 

Atmosfera

O último “A” é a atmosfera, que abrange tanto o aspecto físico como psicológico da escola. O ambiente deve ser aconchegante para as famílias, de modo que se sintam bem em comparecer à escola. Muitas famílias, segundo Susan, tiveram experiências ruins com a educação formal no passado e não querem repeti-las. Serem chamadas à escola apenas para receber reclamações, buscar boletins ou participar de ações institucionais pontuais é também uma queixa frequente sobre a comunicação com professores e gestores. Tornar a escola um lugar acolhedor, em que as famílias queiram estar, é a mudança que precisa acontecer. No panorama dessa mudança, diversas práticas podem ser promissoras. Veremos algumas.

 

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Encontros formativos com a família

Por que não incluir as famílias em ações formativas voltadas ao desenvolvimento dos estudantes? Um exemplo de projeto com esse intuito é o “Aprender em família”, iniciado no Chile sob coordenação da Fundação CAP em 2010. O programa investe em formações de professores para o trabalho com as famílias, em encontros formativos com pais e responsáveis – “Escola de pais” – e na replicação das aprendizagens por esses grupos com outras famílias.

 

Projeto de vida em foco

Investir na construção do projeto de vida, como aponta a própria BNCC (Base Nacional Comum Curricular), é um compromisso com a formação integral dos estudantes. Ele está diretamente relacionado com o desenvolvimento da identidade, o reconhecimento de potencialidades e a participação no mundo. É, assim, um eixo central da conexão de escolas e famílias. Embora deva perpassar todo o currículo, reservar momentos para tratar com as famílias dos projetos de vida de seus filhos é uma oportunidade valiosa.

 

Assembleias

Ao permitirem que professores e estudantes tratem daquilo que desejam ver transformado para que as relações se tornem melhores, as assembleias também abrem espaço para que se conheçam mais, exponham seus sentimentos e anseios. Ulisses Araújo, professor livre-docente da Escola de Artes, Ciências e Humanidade da Universidade de São Paulo (USP), assinala três tipos de assembleias que podem ocorrer no espaço escolar: de classe, envolvendo professores e alunos em sala de aula; de escola, reunindo representantes de todos os segmentos da comunidade escolar; e docentes, envolvendo professores, direção e, quando possível, representantes das secretarias de educação ou da mantenedora.

 

O pesquisador destaca que outros formatos de assembleia são possíveis, como aqueles que buscam aproximar as comunidades e famílias da escola e de seu projeto educativo. Uma importante contribuição para os momentos de assembleia são os registros prévios. Cartazes em colunas podem, por exemplo, ficar à disposição dos participantes com os dizeres “Felicito”, “Critico” e “Proponho”, tal como prevê a técnica do “jornal mural” de Freinet.

 

Caixinha de segredos, Caderno de recados, Preciso de ajuda e Posso ajudar

A Escola da Ponte, instituição portuguesa idealizada por José Pacheco e conhecida por romper estruturas educacionais sedimentadas como a seriação e o currículo por disciplinas, implementa muitos instrumentos de apoio aos estudantes. Um deles é o “Preciso de ajuda em…/ Posso ajudar em…”, gerido pelos alunos para que se ajudem mutuamente, sob orientação dos professores. A “caixinha de segredos” pode receber sugestões, desabafos, pedidos de ajuda.

 

De acordo com a escola, esse recurso “ajuda a manter e aprofundar ‘cumplicidades’ e a reequilibrar afetivamente algumas crianças”. Os recados podem ter um destinatário específico ou não. Quando têm, são entregues a ele. Quando não, são analisados pela comissão de ajuda, outra estrutura concebida pela escola. Os resultados colhidos por meio desses dispositivos podem ser subsídios para um diálogo franco com as famílias, tanto do ponto de vista da aprendizagem quanto do desenvolvimento emocional e relacional dos estudantes, sempre com o cuidado de preservar sua privacidade. O caderno de recados, por sua vez, tem o objetivo direto de comunicação com os responsáveis, conectando escola e família.

 

Fontes:

 

ARAÚJO, Ulisses F. Resolução de conflitos e assembleias escolares. Cadernos de Educação, FaE/PPGE/UFPel. N. 31. Pelotas, julho/dezembro, 2008. Disponível em: <https://periodicos.ufpel.edu.br/ojs2/index.php/caduc/article/viewFile/1743/1623>. Acesso em: 20 setembro 2019.

 

BRASIL, Ministério da Educação. BNCC: Base Nacional Comum Curricular. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, 2018. Disponível em: <http://basenacionalcomum.mec.gov.br/>. Acesso em: 20 setembro 2019.

 

CENPEC EDUCAÇÃO. Diálogos entre família e escola (Entrevista com Susan Sheridan publicada originalmente na plataforma Educação&Participação). Ago. 2019. Disponível em: <https://www.cenpec.org.br/acervo/dialogos-entre-familia-e-escola>. Acesso em: 20 setembro 2019.

 

ESCOLA DA PONTE. Mapa de dispositivos. 2016. Disponível em: <http://www.escoladaponte.pt/novo/wp-content/uploads/2016/11/Dispositivos_descri%C3%A7%C3%A3o….pdf>. Acesso em: 20 setembro 2019.

 

FUNDACIÓN CAP. Programa Aprender en Familia Enseñanza Básica. 2016. Disponível em: <http://www.fundacioncap.cl/aprender-en-familia/proyecto/>. Acesso em: 20 setembro 2019.