Pedro Henrique Santos Gonçalves, de 15 anos, é líder da turma de 9º ano da escola, presidente do Grêmio Estudantil e figura conhecida na secretaria municipal de educação e no grupo de mobilização social de jovens de Nova Viçosa, no sul da Bahia. Mas ele não foi sempre tão engajado assim – levava uma vida que considerava igual à dos outros meninos que moram em cidades grandes: pensava no futuro, em fazer uma faculdade, em jogar bola.

 

Morava em Vila Velha, no Espírito Santo, cidade de 414.5 mil habitantes (dado do Censo 2010) e mudou-se, em 2018, para Nova Viçosa, de 38,5 mil habitantes. A mudança provocou um choque de realidade no menino, que se surpreendeu com a falta de infraestrutura da escola onde cursava o 8º ano.

 

– Eu saí da minha zona de conforto. Pensei que eu tinha que fazer alguma coisa – lembra o garoto.

 

Em busca de uma mudança coletiva, Pedro Henrique pegou a bicicleta, em 2018, e foi parar na secretaria de educação do município. Queria falar com quem estivesse no comando da educação de Nova Viçosa e pedir melhorias, mas sem saber, foi na hora do intervalo de almoço. Encontrou a técnica formadora Telma Duarte, que o convidou para retornar à noite na reunião do grupo de mobilização.

 

— No começo, achei que era uma reunião normal de pessoas da educação, só que, logo que cheguei, vi a Renata [Del Monaco, formadora do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária, parceiro do PVE]. Ela vem de São Paulo para participar aqui com a gente. Sabe quando você olha e sabe que vai se dar bem com a pessoa? Gostei da Renata! Ela foi logo contando a motivação do PVE. Fiquei tão motivado que a minha vontade era de ser milionário e mudar todas as escolas do município, só que eu sou pobre, né?

 

Na escola, a iniciativa de criar um Grêmio Estudantil foi uma das maneiras que encontrou para que os alunos participassem mais da gestão escolar. O Grêmio Estudantil é uma organização, formada por estudantes, que representa os interesses dos alunos dentro da escola. Foi eleito o líder da turma e o presidente do Grêmio Estudantil em 2018 e 2019. A ideia é fazer com que outras escolas tenham o mesmo sistema, para incentivar a participação dos alunos e o processo de decisão democrático. Entre os projetos marcantes está a Agrofloresta:

 

— Atrás da escola parecia um mangue, enchia de água e a gente não conseguia ter acesso, ficava um cheiro ruim, mau odor – relembra.

 

A Agrofloresta é uma espécie de plantio que preserva a floresta de uma área e ainda mantém território viável para o cultivo de alimentos, em vez de priorizar a monocultura. A ação do Grêmio Estudantil, na gestão de Pedro Henrique, permitiu que uma área da escola que estava inutilizada se tornasse limpa, bem cuidada e frutífera para os alunos.

 

Kariny Paiva, mobilizadora do PVE da empresa Suzano, em Nova Viçosa, o descreve como uma pessoa sensacional e muito comunicativa, articulando ações e participando ativamente das reuniões de mobilização.

 

— Tenho certeza que o futuro dele será brilhante, porque força de vontade não falta nele não! Ele tem luz própria e faz com que o outro brilhe também – opina Kariny.

 

Para o PVE de 2019, 0 Grupo de Jovens de Nova Viçosa, do qual Pedro Henrique faz parte, planeja uma biblioteca para esta edição do programa.

 

— Você pega um caixote ou uma caixa de supermercado, decora, põe o nome, seleciona alguns livros e põe nessa caixa, de escola em escola. Tem cronograma pra gente passar para as outras escolas — planeja Pedro.

 

A mobilização social pode ter começado no PVE, mas a atuação de Pedro Henrique pela educação de Nova Viçosa continua além dos grupos. Ele deverá mudar de escola em 2020, porque a instituição dele não oferece Ensino Médio. A intenção é continuar participando do PVE e provocando a mobilização social por onde estiver. Entre os projetos atuais, ele acompanha a implantação das estruturas de Grêmio Estudantil nas demais escolas do município.

 

— Já que eu não consigo mexer na estrutura [da educação na cidade], eu queria mexer com os alunos. Eu consegui ter um diálogo com a secretaria de Educação, mas ainda faltam três ou quatro escolas. Esse ano estou focado nas escolas com Ensino Médio, marcando reuniões para Grêmio Estudantil — revela.

 

Educação como intervenção no mundo

O PVE é um programa que promove ações e oportunidades formativas para o desenvolvimento de competências em gestão e

mobilização social a fim de que os participantes possam contribuir para a melhoria da educação do município. Pedro Henrique (à esquerda) é um exemplo da competência Atitude e disposição para agir, que tem por objetivo incentivar a disposição em atuar pela educação e mobilizar outros pela causa.

 

As práticas desenvolvidas são:

  • Valorizar a educação;
  • Discutir sobre a situação da educação no município;
  • Participar de atividades que envolvam o tema da educação;
  • Estimular outras pessoas a agirem em prol da educação.

 

Conforme Paulo Freire, é condição da aprendizagem crítica a presença de educadores e educandos criadores, inquietos, curiosos, persistentes. Pedro Henrique, Kariny, Renata e toda a equipe do PVE tornam essas características concretas. A atitude e a disposição para agir estão diretamente relacionadas ao propósito da educação como intervenção no mundo. Intervir na realidade, para Freire, é “tarefa incomparavelmente mais complexa e geradora de novos saberes do que simplesmente a de nos adaptar a ela”. O autor pontua, ainda, que o poder de decisão é fundante da autonomia, que nos torna éticos: ela se constitui na experiência das inúmeras decisões que vão sendo tomadas. Encorajar a tomada de decisões e o desenvolvimento de ações responsáveis é base de uma educação libertadora.